Cidade para as pessoas ou para as empresas?

João Baptista Lago

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Como bem explanou Sabrina Duran em sua última aula pública na Praça Roosevelt, a privatizada cidade-empresa elabora narrativas ideológico-midiáticas para tentar se legitimar. Além dos exemplos que ela mencionou, acredito que caberiam também, nessas narrativas de legitimação, todas essas pseudo “audiências públicas” de cartas marcadas, como forma de os gestores da cidade-empresa argumentarem que seus empreendimentos privatizadores do espaço urbano teriam sido, supostamente, “democráticos”.

Foi o que aconteceu e continua acontecendo em relação ao Elevado Costa e Silva, lembrando que os defensores do nefasto projeto de parque linear suspenso no Minhocão, particularmente no 2.o semestre de 2014, não se cansavam de repetir que havia tido diversas comissões e audiências públicas na Câmara Municipal e que, portanto, seu projeto de parque suspenso seria, supostamente, “democrático”. É também o que podemos ver no site oficial da Prefeitura de SP em relação ao hediondo projeto de “requalificação urbana” do Vale do Anhangabaú: está escrito no site, com todas as letras, que houve (sic) “participação popular” nesse processo.

Nesse sentido, são várias as expressões criadas pelos grupos econômicos que mandam na cidade, para tentar obter uma legitimação de mentirinha. Nesse sentido, ainda segundo Sabrina Duran no 2.o semestre de 2014, processos urbanos de especulação imobiliária e faxina social que antes usavam o termo “reurbanização” (muito usado na Gestão Paulo Maluf) passaram a usar uma nova expressão, empregada à exaustão durante as gestões Serra / Kassab: “requalificação urbana”, pois o termo “reurbanização” não colava mais. Isso porque, depois de haver sido ideológicamente desconstruído e depois que sua verdadeira natureza predatória havia sido explicitada, viram que era necessário passar uma outra expressão, para engabelar as pessoas; nascia, assim, a expressão “requalificação” urbana. Como, durante a maior parte dos anos das gestões Serra e Kassab, também a expressão “requalificação urbana” foi desconstruída e suas verdadeiras intenções destrutivas e de faxina social, denunciadas e explicitadas, um novo termo passou a ser utilizado/martelado, também à exaustão: “resignificação”. Introduzido no final da Gestão Kassab, o termo “resignificação de espaços públicos” passaria a ser usado intensamente pela gestão municipal posterior, do atual prefeito Fernando Haddad.

Embora este termo ainda possua alguma força simbólica no sentido de enganar as pessoas, já se encontra desgastado, novas expressões e termos passaram recentemente a serem martelados midiaticamente, como parte das narrativas legitimadoras daqueles grupos econômicos que agem para destruir SP em nome de seus lucros. Preparem portanto os seus ouvidos porque ainda teremos de aturar, durante um bom tempo, a última expressão legitimadora daquilo que é espúrio: “CIDADE PARA AS PESSOAS”. Ou seria para as… EMPRESAS?

Por fim, esta expressão é apenas uma dentre outras, no novo vocabulário das narrativas visando obter legitimação social, através de sua replicação midiática incessante. Nesse sentido, embora o culto ao automóvel e sucessivas gestões municipais tenham, durante décadas, destruído nossa cidade e seus rios através da construção intensa de novas avenidas, viadutos e outros equipamentos viários, é preciso tomar cuidado: “Cidade para as pessoas e não para os carros”, bem como a defesa de uma estética “cool” e o uso intenso de artistas nesse processo, são as novas estruturas, estéticas e linguageiras, que estão sendo empregadas na nova narrativa visando legitimar processos monstruosos de faxina social e destruição da cidade, em nome dos interesses financeiros dos grandes grupos econômicos.

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